Final For Dummies

O Sol ainda nem levantou, mas o despertador toca. São quatro da manhã e você entra num banho gelado pra despertar. É a primeira a chegar na academia, corre, puxa peso. Depois, quando todos ainda estão começando seus dias, você vai pra praia e começa um treino técnico. São milhares de saques, milhares de recepções, milhares de levantadas e mais milhares de cortadas. Se alimenta bem, se hidrata legal. E repete tudo denovo. Por, vamos dizer, sei lá.., uns dez anos, quem sabe? Ai chega o dia. Final das Olimpíadas. Você tem o passe mais bonito do mundo. Putaquepariu. Muito lindo. É campeã. Seu sonho. E aí acorda no dia seguinte.

E sabe o que acontece? Nada. Você acorda como todos os outros dias. Sente fome, calor. Pessoas na rua continuam a passar na rua por você preocupadas com suas próprias coisas. Ninguém parece ligar. Ninguém parece ter visto como você tem o passe mais lindo da história do vôlei de praia. Mais complicado que começar algo, é terminar. Por que o que se faz depois? Começa denovo? Você começa a questionar tudo aquilo que você fez. Por que dedicou todo aquele tempo à vôlei de praia? Tantas outras coisas pra fazer. Você pode não saber calcular seus impostos, pode não saber como funcionam as leis, ou como reagir numa situação de emergência, mas se você cair numa ilha deserta e essa ilha tiver uma rede no meio de um retângulo na areia, você aposta que deixaria alguém envergonhado em uma suposta dupla adversária.

Se vôlei de praia não era a resposta certa, o que deveria ter feito? Ajudado as pessoas necessitadas? Entrado pra política? Se tornado médica? Agora parece tão óbvio que vôlei de praia era errado. Aquelas regras, nossa, agora parecem tão aleatórias. Quem escolhe os juízes? Pessoas que nunca jogaram na vida, não entendem de nada, e ficam lá em suas cadeiras lá no alto cagando regra. Devia ter desconfiado quando me chamaram pra jogar o único esporte olímpico cuja quadra fede a maconha. Mas quer saber. Não ia ter mudado. Não se engane. Tudo de perto parece uma merda. E tem cheirinho de maconha. Isso. Cada analista político que você vê de terno dando entrevista na Globonews. Pense na faculdade de sociologia que ele fez. Um psiquiatra especialista em mentes criminosas. Pense nessa faculdade. Pense nas regras aleatórias e arbitrárias que um jornalista recebe de seu editor, ou que o pesquisador marinho recebe do patrocinador, ou que o humorista recebe dos produtores do programa. É tudo a mesma merda.

Relaxa. Se preocupe menos. O caminho é o que vale. O final só te parece difícil por que você curtiu o caminho. E acredite, não é tão difícil achar graça em outro, no fundo é tudo igual. Com o tempo você até esquece do cheiro. Eu prometo, vai ser legal

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Relacionamentos For Dummies

Eu atravesso um salão lotado, você e suas amigas sentam em cadeiras perfiladas na parede, eu te chamo pelo nome, estendo a mão e te chamo para dançar, você olhas as amigas, parece não entender se é com você mesmo, provavelmente imaginava que iam convidar sua amiga Renata que é loira e o pai dela tem uma caminhote maneira, começa a pensar se na verdade eu queria chamar a Renata, mas de repente pensava que você era mais fácil, passa então a manter distância protocolar ao dançar, que me leva a pensar que eu devo ter esquecido de escovar os dentes denovo antes de sair, mamãe faz o melhor bife do mundo, mas é muito alho, putaqueopariu, eu fico nervoso, piso num pé e quase imediatamente peço desculpas, todo envergonhado e você vem e me lembra que o pé em que eu pisei era meu mesmo. Todo compositor brasileiro é um complexado. E todos estamos dançando a sua música.

Sempre tive muitos problemas em conseguir manter relacionamentos por longas durações. Em geral por que nem gostava tanto das pessoas com quem estava, acreditava que elas não me acrescentavam em nada. Eu não sei quem inventou que os cônjuges tem que acrescentar ao outro. “Ah, ela não me completa.” Quem disse que ela teria que completar você? Quem pôs você no centro da atenção? Em um relacionamento, nós temos o casal. Temos uma finalidade: construir coisas juntos. Eu sei que é difícil, por que passamos nossa vida toda sozinhos, e fazendo planos sozinhos. Sua coleção de miniaturas podia ganhar novas peças, mas com um bebê chegando, sua mulher te deu uma bronca e te impediu de gastar esse dinheiro. Você se acha no direito de ficar puto. Eu te acho um imbecil, onde que suas coisas mongoloides são mais maneiras que um filho? Por um acaso você não saber que eles falam e andam sozinhos?? Porra muito foda!!! Novas prioridades serão estabelecidas e cabe apenas a você, se desapegar aos planos antigos. Fazer as coisas em dois é muito mais fácil, eu prometo. E vai dizer que tava tão legal assim quando tava sozinho? O mundo ainda não sabe como remunerar seu talento em se masturbar debaixo das cobertas sem acordar o irmão na cama debaixo. Foi mal.

A verdade é que da próxima vez, no lugar de procurar uma menina com os seus gostos, tente encontrar uma menina com os seus valores. E não, concordar com você em qual cd do Radiohead é melhor não é um valor. Procurar uma menina com seus gostos é só procurar alguém pra concordar com você. E isso não é sobre você. É sobre um casal. Você não é a pessoa mais inteligente do mundo. Pára com isso. Pára de sorrir tão sério.

Se relacione com alguém que acima de tudo, saiba discutir. Sério. É o melhor conselho que posso dar. Saber discutir é o maior valor na minha lista. Não saia com alguém inteligente ou que você admira por outras questões, essas pessoas raramente darão importância para sua razão ou a sua vontade. O importante é saber discutir. E pra isso, é só saber não interromper, poderar as vontades dos dois lados e procurar soluções. Quando namorados brigam, se perde muito tempo tentando achar um culpado e discutir aquilo que já foi dito. Pule essa parte. Nada de importante é dito nessa parte. As pessoas apenas se machucam e acabam sem motivação de discutir. Qualquer solução tirada numa discussão assim é por que uma das partes cansou e resolveu deixar o outro lado ser babaca a vontade. As discussões devem começar por, desculpa, o que você acha que pode ser feito pra melhorar. E quando digo melhorar, digo melhorar pros dois. Vamos acabar com esse complexo de épico. Vem me amar. Me coça a nuca e me chama de lindo. Não era pra ser tão complicado assim. É só amor.

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Motéis For Dummies

Hohoho! Acabou o Natal, Jesus já nasceu e já partiram o peru, e eu estou aqui denovo, muito bem acompanhado para ensinar os segredos da vida. Passados os feriados religiosos, vai começar a putarinha. O processo é violento.

Diferente do que as pessoas imaginam, motéis podem ser muito mais imponentes do que parecem. Por trás do letreiro neon e do chafariz existe um mundo de julgamentos e preconceitos que sobrevive pelo silêncio dos oprimidos. Entrar num motel pode ser tão aterrorizante quanto aquela primeira camisinha comprada, ou às revistinhas de mulher pelada que você botava dentro dos gibis do Spawn.

Eu me refiro a galera que não tem carro e tem que ir à pé, entrando por largos caminhos de carros, adentrando ambientes marmorizados, andando de mãos dadas com uma exposta companheira já suada de ter andado do ponto até ali. Já de início, o porteiro te olhando de cima a baixo, você sem saber onde por as mãos, faz o que? Segura o seu volante imaginário? Quando se entra no motel sem carro, se entra nu.

Eu me recuso também a pegar um táxi para ir ao motel. Ir de taxi é como um convite aberto. O cara já te levou até lá, baixou o vidro, conversou com o porteiro, negociou o quarto e não leva nem um agrado? E todo mundo sabe que um beijinho na cabeça nem conta de verdade, né?

Nós temos é que abaixar nossas expectativas quanto aos motéis em favor de um bem maior. Quem precisa dessa pompa? Da próxima vez, quem sou eu para reparar um cabelinho no vaso? Ou uma manchinha no lençol? Ou aquele cheirinho estranho da travessa de frutas que vinha na promoção da suite Tropicana? Quem se importa com as cameras atrás do espelho ou com detalhes bobos como possuir dois rins? Acho que se isso não prova meu ponto, eu teria que estar errado. Até a próxima.

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Religiões For Dummies

Boa noite, caro amigo. Ajoelhe-se aí nesse banquinho e me conte o que te perturba. Me conte seus maiores segredos, tudo aquilo que você se arrepende, tudo aquilo que te faz sentir podre na vida. Eu estou aqui pra te ajudar. Eu tenho o poder de te limpar dos pecados, até pelo menos a semana que vem. Sim, eu sei que aquele pãozinho também deveria te salvar. Aquela água, também, super espiritual. Mas nenhuma dessas substitui contar suas coisas pra mim. Vai, vamos, conta. Conta logo, moleque, sei bem que foi você que pôs melado no banco da igreja! O tema dessa semana é Religião For Dummies. O processo é violento.

Ok, eu compreendo que a simples lógica e a razão não proporcionam explicações lógicas pra tudo. É tranquilo imaginar uma força superior. Uma força criadora. O que eu não me aguento é com as certezas. Todas as religiões do mundo contaram com alguém recebendo uma inspiração divina e escrevendo um livro sozinhos. O profeta foi lá e sozinho descobriu que só existe um Deus, Ele é homem que nem ele, que Ele escolheu o povo dele pra ser especial, que Ele até prometeu terras e proibiu a galera de comer porcos, pra fuder com o chiqueiro daquele vizinho filhodaputa que fica levando leitão pra passear no meu gramado e não recolhe cocô.

Será que eu sou o único que consegue ver Jesus como um grande Macunaíma da Antiguidade, zuando pela vida, pregando peças, mágicas e patifarias? Ele, que já teria nascido de um golpe fudido de Maria enganando um carpinteiro corno meio ingênuo, quase cínico, feliz e sorridente que o filho dele é filho de anjo. Mas aí o garoto quando vem é o capeta em forma de guri, juntando com sua gangue pra viajar, filando casa e comida, fazendo truque com corante pra cima de bêbado em festa, brincando de um morto muito louco.

Mas o que meio que legitima, no fundo, é a mensagem. Todos falam de amor, caridade e tals. Mas tem que haver um filtro. Eu imagino se Jesus estivesse aqui. Ele num debate político, tentando ser o eleito pelo povo, só que agora com eleição. “Jesus, você é pró-vida?” “Ahn, sim, acho que posso dizer que sim.” “E o que você tem a dizer sobre as acusações do seu adversário de que você seria responsável por todas as mortes na História da humanidade?” “Bem…” “E o que você pode dizer sobre o desaparecimento dos dinosauros? Pra onde foi essa mamata?” “Olha, …” “Jesus, ano passado meu filho pediu um skate e tudo que ele ganhou foi uma máquina de fazer pão da Polishop, você não tem vergonha?”

Tá tudo bem ter religião. O que não vale é acreditar na alegoria, vai. Alguém está cafetinando a garota de 12 anos que existe dentro de você. Vamos ficar só com o amor e cuidado entre todos. Prometo que é assim que vai melhorar. E por mais uns trocados, eu posso prometer o que você quiser.

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Germes For Dummies

Alô, alô, criançada! Na aula de hoje temos um tema importantíssimo. Essa última semana recebemos muitas reclamações de algumas mães falando que seus filhinhos andam aparecendo com piolhos, que os filhotes tem ficado com muitos enjôos, e que apostam que isso deve ser culpa daquele escroto do Naldinho cujos pais não contribuiram pra vaquinha do amigo oculto da Associação de Pais e Mestres. Escroto. Então, tome nota e preste atenção. O processo é violento.

Eu passo a semana toda esperando quarta-feira que é dia de bife à parmegiana e milho na espiguinha no serviço. Putaquepariu que felicidade que é esse bife na minha vida. Tava tão feliz que quase nem fiquei bolado quando a minha escova de dentes caiu no vaso. Quase. Porque um corno de um milho resolveu passar o dia me torturando entre os dentes. Impossível sair. Pessoas juravam que eu tinha ficado retardado mental, tentando tirar essa merda com a língua, quase testando se meu punho inteiro entrava na minha boca pra remover esse cu. Cara, comida no dente me dá muito nervoso.

O pior de comida no dente é que eu começo a pirar. Imaginar na quantidade de germes que devem tá na minha boca, ali de boa destruindo anos e anos de aparelhos ortodentários, sentindo cada um deles passear calmamente pela boca. Mas assim, o que impede eles de se manterem na boca? Não é como se eu tivesse um rio de lava separando minha boca do resto do corpo. Na verdade, não tem nada separando. Eles podem simplesmente andar livres, entrar nos poros que quiser, percorrer a superfície que quiser. Pior, quem disse que germes querem sair da boca? Eles podem muito bem andar pra dentro, pra dentro pelo amor do bebê Jesus! Vocês saber que a boca e o cu são essencialmente o mesmo tubo??(citation needed) Pois é, pois é, pois é.

É mais ou menos por aí que eu percebo que nesse momento, nesse exato minuto, eu estou coberto de germes. AEAEEAHHSSSSOCOOROROOC ROCOROCAEAEAEAEEAEJCTDrrrrrrrrrrrrAAAAAAAHHHHHHHufa. (esse fui eu correndo pelo escritório, tirando a roupa e me esfregando nu contra um carpete áspero)(esse também fui eu correndo desempregado). “Felipo, ce ta bem” “Mano, eu to coberto de germes, existem germes em todos os lugares” “É, eu sei, cara. Tá tudo bem. Acontece. A gente pode tentar tirar eles ao máximo, a gente passa a maior parte do tempo só tentando ignorar a existência deles, mas o que não dá é pra do nada se tocar que existe e querer lanhar bunda no trabalho”

Depois desse dia, nunca mais acreditei em arrastão.

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